08 junho, 2009

Absolut Vieira

A rivalidade entre Benfica e Sporting já não se cinge à luta pelo segundo lugar no campeonato, mas também à realização de eleições. Devido à alegada «instabilidade» (???) no clube da Luz foi convocado acto eleitoral para Julho. Fragilizado pelo fracasso desportivo e com a confirmação do despedimento de Quique Flores e a mais que provável entrada de Jorge Jesus (pelos vistos os jornalistas não estavam a dizer mentiras), Vieira faz uma jogada de mestre para aniquilar a concorrência, antecipando as eleições previstas para Outubro e evitando uma candidatura de José Veiga. Em meados de Julho, com nova maioria absoluta nas mãos, com um novo treinador pronto para inebriar as massas, sedentas de ouvir «este ano é que é», e com um saco cheio de jogadores brasileiros e argentinos de duvidosa qualidade, o estado de graça de Vieira vai resistir até... à primeira derrota.

O interesse deles e o interesse de Portugal

Com um indisfarçável sorriso de orelha a orelha por causa da vitória da véspera do seu PSD e de Ferreira Leite, visita assídua lá de casa, Cavaco sublinhou que «o mais importante para o interesse de Portugal é que Durão Barroso seja eleito como presidente da Comissão Europeia». Dizer que José Manuel Barroso, como ele gosta de ser chamado, contribuiu para melhorar a nossa imagem ou aumentar o nosso papel na Europa é o mesmo que jurar que os golos do Cristiano Ronaldo ou as vitórias das equipas treinadas por Mourinho fazem disparar o Produto Interno Bruto. Estão todos é a tratar das suas «vidinhas». Ah, por falar em Durão e Cavaco, com tantos salamaleques, não admiraria que um viesse a suceder ao outro. O timing é perfeito. O «fugitivo» passa mais 4 anos no exílio dourado de Bruxelas e regressa direitinho para Belém, substituindo Cavaco que passará as tardes a jogar «Playstation» com os netos na Travessa do Possolo. Como é que não pensamos nisto antes?

07 junho, 2009

De ressaca

A tese da (in)governabilidade e do «nós ou o caos» vai ser brandida pelo PS nos quatro meses que faltam até aos proximos actos eleitorais. Nas autárquicas, e especialmente nas legislativas, será diferente. Na hora da verdade, confrontados com a escolha entre Sócrates e Ferreira Leite tenho dúvidas se a maior parte dos portugueses não se vai inclinar pelo «chefe» socialista. De qualquer forma, esta semana dos feriados promete ser de ressaca no Largo do Rato. O súbito desmanchar de feira e esvaziar da sala do Hotel Altis, testemunhado pelas câmaras de TV, foi algo de verdadeiramente arrepiante.

Nulidade

Esta eleições tiveram uma assustadora estatística que dificilmente qualquer politólogo, por mais habilitado que esteja, pode descodificar: 164 mil votos brancos e 71 mil votos nulos. Significa isto que cerca de 235 mil portugueses saíram de casa e dirigiram-se até ao seu local de voto para «isto».

O fenómeno Bloco

Há alguns anos, na noite em que se demitiu do CDS, Paulo Portas disse estar envergonhado porque no seu país a esquerda «radical» tinha demasiado peso - algo sem paralelo na Europa, afirmou então. Esta noite não falou disso porque o CDS safou-se. Em 2009, a esquerda nacional, the real one, not the fake one, tem ainda mais dimensão político-partidária, com 21 por cento do eleitorado. A CDU manteve o seu habitual registo de votos, mas fica o amargo de boca por ter sido suplantada pelos rivais «bloquistas».
O Bloco de Esquerda foi o grande protagonista da noite eleitoral com três deputados eleitos, reforçando-se como uma força poderosa junto dos mais jovens e nos grandes centros urbanos. Muitos anunciavam que o partido era um balão a perder ar. Louçã deu-se até ao luxo de aparecer para a declaração habitual, depois da vencedora, Ferreira Leite. Pelos vistos, potencial de crescimento existe. Resta saber até onde pode ir este Bloco?

A Taça da Liga da política

Não foi exuberante a vitória do PSD, mas como popularmente se diz, por um voto se perde, por um voto se ganha. O PS vai fazer tudo nos próximos dias para equiparar o triunfo das europeias dos sociais-democratas ao triunfo do Benfica na Taça da Liga. Um prémio de consolação. Animicamente este resultado é importante, mas ao mesmo tempo soa a paradoxal saber que um dos seus obreiros, Paulo Rangel, vai fazer as malas para Bruxelas, esvaziando a sensação de refrescamento que trouxe para o partido.

A frase da noite eleitoral

«O mercado de sondagens em Portugal está viciado», Paulo Portas, líder do CDS-PP, comentando a discrepância entre o resultado obtido pelo seu partido nas europeias e a tendência apontada nas sondagens, 7 Junho 2009

A primeira vez de Manuela

Manuela ganhou pela primeira vez. Os sociais-democratas já estão a iniciar a romaria até à sede nacional do PSD para os previsíveis festejos da vítória nas europeias. A São Caetano à Lapa, onde não se realizava uma noite eleitoral há uma década, parece ter sido talismâ. O PS é admoestado pelos eleitores com um cartão muito alaranjado, mas decretar, como Marcelo Rebelo de Sousa, o «fim de ciclo» socialista e a consequente morte política de Sócrates é, à semelhança do que previsivelmente vai acontecer com o CDS de Portas, um manifesto exagero. Garantido é que o sonho da maioria absoluta do PS terminou esta noite.