02 maio, 2012

MEC, como só ele sabe...

Bem sei que ando um sentimentalão, mas dói a alma ler as crónicas que Miguel Esteves Cardoso (MEC) dedica à sua mulher, gravemente enferma de cancro. Pode aconteccer a qualquer um de nós ou a um dos nossos. O MEC partilha sua privacidade com uma mestria incrivel. O amor existe e é verdadeiro. Digam-me lá o que dizer deste escrito publicado no «Público» de domingo, 29 de Abril:
“Às vezes encontramo-nos com a cabeça nas mãos. Tudo o que poderia ter corrido bem correu mal. O mundo, que era igual à vida, afasta-se de repente. Distancia-se e continua a existir, como se nada tivesse a ver ou a haver connosco, como se fizesse questão de mostrar a independência dele, mundo, que não existe só porque nos damos conta dele. A má notícia é má, mas a pior, para quem cá está, é a pessoal. A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só uma conjunção das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. Exterminado no pulmão ou na mama, foge para o cérebro, onde se refugia e cresce. Forma uma força da morte, aproveitando as barreiras antigas entre o sangue e o cérebro, que infiltra conforme lhe apetece. Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos, dois amores, felizes há quase vinte anos. Amanhã, logo às nove da manhã, estaremos na consulta dos excelentes neurocirurgiões do Hospital de Santa Maria, onde nos avisarão das complicações possíveis. Obama deveria inspirar-se na perfeição clínica e humana do serviço de saúde português e francês. Mas a dor não diminui. Nem a tristeza abranda. Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem.”

Pingo Doce, pilhe cá

01 maio, 2012

Esquizofrenia verbal

 
É esquizofrénico ouvir Gaspar e Passos. O primeiro está transformado no Zandinga do Terreiro do Paço, enquanto o Primeiro-Ministro é pouco dado a transmitir boas notícias, preferindo dizer, em tom suave, que o desemprego está para lavar e durar. Estou certo que a equipa de spin doctors do Sócrates era bem capaz de fazer destes dois uns verdadeiros príncipes da comunicação

O raríssimo dom do Dinis

Assisti hoje na SIC a uma reportagem sobre o verdadeiramente tocante caso de vida do menino Dinis e da entrega dos seus pais para fazerem com que o seu filho, de 4 anos, viva uma vida o mais normal possível, quando é portador de uma doença incurável, a eucoencefalopatia.  Há 20 casos em todo o mundo. A medicina só lhe deu um ano de vida, afinal o Dinis já sobreviveu a três. O relato do calvário e de como aprenderam a viver e a amar um filho diferente, é contado pelos pais está agora disponível em livro e chama-se «O dom do Dinis». 
Blog:
http://www.dom-do-dinis.com/index.html
Notícia:
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=59948

O país do Lego

A olho nu parecia uma fila a papel químico das que estamos habituados a ver à porta dos centros de emprego. Mas com uma dimensão inusitadamente superior e com um anormal número de pessoas de baixa estatura e tenra idade. Afinal, eram crianças acompanhadas pelos seus pais. Não havia tourada e era muito cedo para o circo. Seguranças e mais seguranças, de walkie-talkie em punho, procuravam ordenar a excitada turba. Depois de indagar, fiquei a saber que era o último dia para ver a exposição do Lego no centro da praça de touros do Campo Pequeno. Bilhetes a 5 euros para adulto e a 3 euros para os petizes. E é se querem. A dúvida era mesmo saber se os pais vinham acompanhar os filhos, ou se foram os pequenos e terríveis a arrastar os progenitores.Tal como a exposição, Portugal assemelha-se a um Lego, é facilmente desmontável.

A frase do dia

«Precisava de ir agora ao Pingo Doce, mas não tenho porte de arma», Nilton, humorista, no Facebook, 1 de Maio de 2012

«Arrastão» Pingo Doce

O teatrinho canalha do «leve 100, pague 50», que o Pingo Doce fez no dia de hoje, por acaso (só por acaso) 1º de Maio, é condenável a nível social, moral, de segurança das populações e, em último caso, suscita questões no âmbito da legalidade.  Ver as prateleiras de dezenas de superfícies comerciais do grupo Jerónimo Martins como se tivessem sido algo de pilhagens é algo mais próprio do Haiti ou da Guiné-Bissau. Não em Portugal. Do ponto de vista sociológico, defendo que este dia seja aproveitado pela Fundação Manuel dos Santos, criada pela Jerónimo Martins, para reflectir sobre a evolução do contexto social do país. Atribuam ao sociólogo Barreto, responsável pelas edições desta fundação, este trabalhinho, para aferirmos a que conclusão chega o antigo ministro da agricultura sobre o carácter do retalhista que lhe paga uns cobres.

A frase do dia

«Um país que elege políticos corruptos para cargos públicos, só tem aquilo que merece», João Gabriel Silva, Reitor da Universidade de Coimbra, durante a conferência A Soma das Partes, realizada em Coimbra, 30 Abril 2012